Há doze anos, quando eu tinha nove, ganhei da minha madrinha um exemplar do livro infanto-juvenil mais lido naquela época e que veio a se tornar um fenômeno mundial. Era Harry Potter. Obviamente que pra mim, não se passava de um primeiro contato com a literatura e, por conseguinte, com um novo mundo. Mas pra minha madrinha, era muito mais. Ela estava me dando a oportunidade de cultivar o hábito pela leitura.
O que aconteceu, de fato.
Mas naquela mesma época em que Harry Potter vinha resgatando o contato de uma geração com os livros, surgiu-se um questionamento: será que a obra realmente traria a leitura para o cotidiano dos jovens ou eles apenas iriam manter o gosto por aquela obra?
Depois de ler o primeiro Harry Potter, li o segundo. Depois, o terceiro. Aí, comecei a procurar por outros títulos. Conheci então Senhor dos Anéis. Pouco depois, comecei a ler as obras de Dan Brown. A partir daí, não parei mais. De Jô Soares a Jane Austen, passando por Nicholas Spark e Shakespeare.
O tempo passou e ficou comprovado que a geração Harry Potter lê muito mais do que Harry Potter. VEJA fez uma grande reportagem sobre o assunto há algumas edições. A geração que está pragmatizada como a mais sexual e a mais psicologicamente afetada, com seus bullyings e transtornos, é também a que mais lê.
Acontece que, a partir daquele primeiro contato com a leitura, as crianças e os jovens foram procurando outras obras com assuntos interligados, ou não. O hábito de ler ficou intrínseco.
E não se tem noção da importância disso.
Vivemos em uma geração saúde, onde tomou-se consciência da necessidade da prática esportiva e da alimentação saudável. As mídias também trabalham o culto ao corpo e alimentam o exercício da massa corporal. Ótimo! Adoro isso. Mas por que não exercitar também a massa encefálica? Afinal, do que vale viver mais e melhor se for pra viver sem conteúdo?
A Leitura ficou associada à literatura brasileira forçada nas escolas, onde crianças de onze anos precisam ler Machado de Assis, José de Alencar e companhia antes mesmo de ter contato com algo menos denso, como um Pequeno príncipe ou os livros infantis de Manoel Bandeira. É chato! A escola brasileira precisa rever seus métodos. Ao invés de incentivar, ela bloqueia o hábito e ler vira uma obrigação. Lógico que não vamos eliminar os clássicos da nossa literatura, mas não podemos usá-los como ponto de partida.
E a importância de ler para a sociedade é enorme. Estamos cansados de saber que tudo parte da educação. A cultura de um povo é fomentada naquilo que ele é. E a ignorância preservada nas raízes do brasileiro atrapalha o seu crescimento como sociedade. Longe de mim chamar alguém de burro. Vamos compreender a etimologia das palavras. Chamo-nos de ignorantes, porque ignoramos o hábito da leitura e isso precisa ser revisto urgentemente.
Ler amplia o vocabulário, embasa pensamentos, estimula a imaginação e todos, engenheiros, médicos, matemáticos, esportistas, precisam saber se comunicar, afinal, esta é a base societária imprescindível.
Soube da infeliz cartilha do MEC que visa aceitar palavras erradas em grafia e pronúncia e termos discordantes. Segundo essa cartilha, podemos falar “nós vai” porque o que importa é compreender a mensagem. Corrigir quem fala “nós vai” é chamado agora de preconceito linguístico. Ok. E chamar do que isso que estão tentando fazer com a língua portuguesa? Homicídio linguístico?
O MEC precisa se ocupar em otimizar a qualidade do ensino brasileiro para que não hajam pessoas que falem errado, e não ao contrário, desvalorizar a nossa gramática. Onde já se viu coisa igual? Bizarro.
Em um país onde ler é algo escasso e tão difícil, como construir os pilares das gerações futuras?
Nunca se orgulhe se você um dia falar “não gosto de ler. Não leio um livro. Me dá sono”. Ao contrário. Procure ler, se informar. E faça ainda melhor: faça com que seus filhos, sobrinhos, netos, afilhados leiam. É a educação que transforma um povo.
Há doze anos, minha madrinha me presenteou com aquilo em que encontro muito prazer e que me transformou e não sou nenhuma careta intelectual por conta disso. Aliás, acho muita bossalidade empurrar uma visão mais cult e desvalorizar a cultura popular, da qual muito me alimento, aliás. Uma pessoa não precisa ler Kafca pra ser considerado um leitor. Precisa simples e puramente ler.
Tenham a certeza: hoje sou muito, mas muito, menos do que espero para mim, só que estou no caminho, porque sei me comunicar adequadamente e sei me expressar consideravelmente. Eu me informo e procuro saber, ao menos, o básico do que está acontecendo no mundo hoje. É desta maneira que as pessoas crescem.
No último domingo comecei a ler o livro Guerra dos Tronos – as crônicas de gelo e fogo. O livro é homônimo de um seriado épico super sexo, drogas e rock’in roll maravilhoso da HBO. Tem 591 páginas o que talvez me assustasse. Mas para mim ele significa mais uma grande oportunidade de conhecer um novo mundo.
Sabem o por quê?
A leitura transforma.
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